segunda-feira, 7 de junho de 2010
O Declínio do Homem Público, Capitalismo Flexível e a Universidade no Século XXI.
“La enajenación y las kafkianas cucarachas” (Gonzalez, J.)
Afirmei em texto(20/03/10) que os donos do mundo podem ter suas Bombas da Paz a granel, com o generoso B. Obama só terão 1.550 ogivas nucleares. Há algum tempo os USA experimentaram (1946-1958) mais de 20 artefatos da paz no Atol de Bikini e os habitantes das ilhas ainda convivem com a contaminação. Muitos gestores, apegados a seus cargos burocráticos, tomam competentes decisões sobre a vida de milhares de seres humanos. A racionalidade das organizações burocráticas, estudadas com profundidade pelo alemão Max Weber, pauta-se pela eficiência técnica, ou seja, a coerência entre os meios empregados e os fins almejados. Se o objetivo é experimentar a eficiência das bombas que se danem os princípios éticos. Eu continuo com minha mania de ler livros, pois aprendo com este diálogo solitário. Cristophe Dejours, especialista em psicopatologia do trabalho, escreveu uma obra especial, “A Banalização da Injustiça Social”. Segundo Dejours, a injustiça social avança com a precarização, terceirização e flexibilização laboral. Diante da competição mundial acirrada, dos altos níveis de desemprego e da fragilização dos sindicatos as empresas capitalistas elevam as taxas de exploração do trabalho ao paroxismo. O pior é que os gestores das universidades estão copiando esta eficiente ideologia gerencial que tem provocado mortes por “overdose” de trabalho (karoshi) e várias psicopatologias organizacionais. No livro de C. Dejours há uma profunda reflexão sobre o “sofrimento ético” de gerentes que encarnam o espírito desta moderna “ciência gerencial”. Por meio de técnicas de controle social as burocracias empresariais flexíveis buscam a “servidão voluntária” (E. La Boétie) da classe proletária, a docilização dos “colaboradores proativos”. Mas é preciso deixar claro que nem todos os gerentes que sigilosamente demitem os operários experimentam o “sofrimento ético”; é sabido que a “corrosão do caráter” (R. Sennet) estimula certo sentimento de prazer, mesmo quando decisões são injustas. Os pequenos gestores, na disputa pelos “micros- poderes” participam de forma animada da dramaturgia burocrática (Thompson, V.). Diz C.Dejours, “a atual conjuntura favorece o sigilo e o cada um por si”. Estou acompanhando a triste história do Prof. Josef K. da Universidade Federal do Agreste da PB. Ele foi “pego de surpresa” com publicação de um Ato Administrativo arbitrário que cortou 1/4 de seus proventos e o pior, não teve nenhum espaço para defesa. É óbvio que esta forma de ação dos pequenos burocratas, que tem seu fundamento no individualismo mercantil (declínio do homem público, Sennet, R.), produz patologias psíquicas e sociais. Diz R. Sennet: “os pequenos gestores sabem que, mesmo mercantilizando a alma, não têm seus micros-poderes garantidos”. Com o avanço acelerado do modo de destruição capitalista “tudo que é sólido desmancha rápido no ar”. Speed as skill... (Publicado no Jornal Primeira Página – São Carlos. 04/05/10- Opinião- p. 2.)
Felipe Luiz Gomes e Silva- felipeluizgomes@terra.com.br,
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Capitalismo da miséria (1)
A miséria é uma categoria total, ou seja, macula e determina o caráter de todos os momentos da reprodução social.
Nascemos da miséria ibérica e suas determinações imanentes: sociedade miserável feudal-mercantil. Fomos paridos por revoluções burguesas conservadoras ideadas por uma nobreza altamente vinculada aos negócios do capital. Criava-se um território real do e para a acumulação do capital a todo o preço, sem peias de qualquer tipo, sequer as religiosas, pois a igreja participava solidariamente do empreendimento colonial. Território colonial do capital, das classes que participavam do negócio: nobreza, clero, burguesia. Desta, dos seus poucos membros inicialmente imigrados parcela significativa de pequenos burgueses recém cristianizados, ex-judeus, ou seja, recém despojados de sua religião ancestral. Momento nuclear da organização da revolução conservadora é a Inquisição, criação política hispano-clerical-monárquica espraiada a Portugal, de repressão à burguesia ascendente após a Reconquista - já bem instalada entre as famílias dos novos grandes de Espanha - assim como das revoluções política, científica e religiosa vinculadas à ascensão burguesa que já davam o ar de sua graça em outros reinos europeus. A revolução burguesa conservadora é desse modo, reação contra-revolucionária em todos aqueles campos da reprodução social contrastantes com os seus limites monarquico-clericais. Foi, no caso ibérico, processo de longa duração, todavia vigente e seu significado esteve e permanece sendo a contenção máxima da emancipação em limites gritantemente rebaixados com relação aos processos da transição capitalista das revoluções burguesas radicais quanto das demais etapas dessa transição ocorridas nos séculos XIX e XX. Rebaixamento ao nível do desumano, do escandaloso, do incrível, do grotesco, do fantástico. Nascidas da desumanização radical dos proletários paridos na escravidão, suas classes burguesas tornam-se naturalmente costelas desse marco zero da humanidade, pois sustentáculos da manutenção desse modo de ser da acumulação do capital e, portanto, entes igualmente desumanos. Daí poder-se falar em forma específica de desenvolvimento capitalista, redundante em capitalismos da miséria. (SP, 9/03/2010)
Nascemos da miséria ibérica e suas determinações imanentes: sociedade miserável feudal-mercantil. Fomos paridos por revoluções burguesas conservadoras ideadas por uma nobreza altamente vinculada aos negócios do capital. Criava-se um território real do e para a acumulação do capital a todo o preço, sem peias de qualquer tipo, sequer as religiosas, pois a igreja participava solidariamente do empreendimento colonial. Território colonial do capital, das classes que participavam do negócio: nobreza, clero, burguesia. Desta, dos seus poucos membros inicialmente imigrados parcela significativa de pequenos burgueses recém cristianizados, ex-judeus, ou seja, recém despojados de sua religião ancestral. Momento nuclear da organização da revolução conservadora é a Inquisição, criação política hispano-clerical-monárquica espraiada a Portugal, de repressão à burguesia ascendente após a Reconquista - já bem instalada entre as famílias dos novos grandes de Espanha - assim como das revoluções política, científica e religiosa vinculadas à ascensão burguesa que já davam o ar de sua graça em outros reinos europeus. A revolução burguesa conservadora é desse modo, reação contra-revolucionária em todos aqueles campos da reprodução social contrastantes com os seus limites monarquico-clericais. Foi, no caso ibérico, processo de longa duração, todavia vigente e seu significado esteve e permanece sendo a contenção máxima da emancipação em limites gritantemente rebaixados com relação aos processos da transição capitalista das revoluções burguesas radicais quanto das demais etapas dessa transição ocorridas nos séculos XIX e XX. Rebaixamento ao nível do desumano, do escandaloso, do incrível, do grotesco, do fantástico. Nascidas da desumanização radical dos proletários paridos na escravidão, suas classes burguesas tornam-se naturalmente costelas desse marco zero da humanidade, pois sustentáculos da manutenção desse modo de ser da acumulação do capital e, portanto, entes igualmente desumanos. Daí poder-se falar em forma específica de desenvolvimento capitalista, redundante em capitalismos da miséria. (SP, 9/03/2010)
quinta-feira, 8 de abril de 2010
CHUVA DE CATÁSTROFES E EXPLOSÃO DA MISÉRIA
As catástrofes inevitáveis explodem a miséria, lançam à cena pública uma miríade de seus mil pedaços através de seus vários personagens. O secretário de obras, o governador, o prefeito, o presidente da república, o pai de família desesperado com a morte de seus filhos, a mãe de família idem, os repórteres e bombeiros, os vizinhos e parentes, o professor da COPPE especialista em risco, o arquiteto e o urbanista, o médico e a criança repentinamente órfã. A televisão organiza a ópera dos mortos, horas mostrando a agônica busca por soterrados e as águas desrespeitosas a inundar redutos de maiorias miseráveis e minorias ricas. Um carro se despenca sobre uma das três garagens do velejador rico, arrastado por uma encosta que cruza a rodovia por onde ele passava. Salvam-se mãe e criança, salvas pelo dono da casa que também deverá após isso abandona-la. No morro do Bumba, em Niterói, havia um velho lixão desativado, sobre o qual os miseráveis (alguns deles até ascendidos à nova classe media inventada nos jornalões e órgãos interessados na liquidação administrativa da miséria) construíram suas casas e passaram a viver com as suas famílias. Com as chuvas o lixão moveu-se e dezenas de casas foram arrastadas morro abaixo. Desgraça sobre desgraça. Todas as relações miseráveis desventradas, escancaradas em praça pública e por todo o lado gritos de contrição, desculpas, acusações cruzadas de incompetência administrativa, olhares culpados, vergonha pública a tagarelar sobre supostas causas e efeitos. Todos, ricos, pobres e remediados partícipes e cúmplices da opera da miséria, todos miseráveis. O que os nichos acadêmicos, administrativos, flagelados ou televisivos não sabem ou não ousam dizer é que a miséria é a forma histórica de reprodução desta nossa sociedade capitalista, ou seja, nossa forma de existir subordinadamente sob o império do capital. Nabuco já dizia isso da sociedade escravocrata, a qual, intransformada, lépida marchou através de revoluções e contra-revoluções rumo à sua miserabilidade transformada, porém mantida. Capitalismo da miséria ao lado da constelação de outros vários seus irmãos de matriz colonial ibérica. Sociedade capitalisticamente intransformável em suas co-irmãs paridas por revoluções burguesas radicais na Europa ou Ásia. Para não dizerem que só os discípulos de Marx pensam assim, até nosso maior pensador econômico keynesiano-humanista, Celso Furtado há muito já sabia disso. Dizia ele com todas as letras em 1974, em seu livro O mito do desenvolvimento econômico “(...) o desenvolvimento econômico – a idéia de que os povos pobres podem algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos ricos – é simplesmente irrealizável. Sabemos agora de forma irrefutável que as economias da periferia nunca serão desenvolvidas, no sentido de similares às economias que formam o atual centro do sistema capitalista. Mas, como negar que essa idéia tem sido de grande utilidade para mobilizar os povos da periferia e leva-los a aceitar enormes sacrifícios, para legitimar a destruição de formas de cultura arcaicas, para explicar e fazer compreender a necessidade de destruir o meio físico, para justificar formas de dependência que reforçam o caráter predatório do sistema produtivo? Cabe, portanto, afirmar que a idéia de desenvolvimento econômico é um simples mito. Graças a ela tem sido possível desviar as atenções da tarefa básica de identificação das necessidades fundamentais da coletividade e das possibilidades que abre ao homem o avanço da ciência, para concentra-las em objetivos abstratos como são os investimentos, as exportações e o crescimento.(...) esse mito (é) seguramente um dos pilares da doutrina que serve de cobertura à dominação dos povos dos países periféricos dentro da nova estrutura do sistema capitalista.” (1) Essa economia insuperavelmente subdesenvolvida faz com que: “A característica mais significativa do modelo brasileiro é a sua tendência estrutural para excluir a massa da população dos benefícios da acumulação e do progresso técnico. Assim, a durabilidade do sistema baseia-se grandemente na capacidade dos grupos dirigentes em suprimir todas as formas de oposição que seu caráter anti-social tende a estimular.” (2) Os pequeno burgueses e seus aliados no poder esqueceram-se disso em seu afã de reinventar o desenvolvimentismo e servir ao capital monopolista em seu salvacionismo pró-capitalista extemporâneo.
São Paulo, 8/04/2010
(1)p.75-76;(2)p.109
São Paulo, 8/04/2010
(1)p.75-76;(2)p.109
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
DNOCS 100 anos: uma coleção de êxitos
Faz 100 anos que o DNOCS - criado em 1909 com o nome de Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS), trocado 10 anos depois para Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (Ifocs) e substituído, nos anos 40, pelo de Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, a sigla atual -- cuida do Nordeste.
Foi o DNOCS que desenhou e implantou a malha rodoviária básica da região; foi ele que construiu as grandes e médias barragens do sertão nordestino e também suas primeiras hidrelétricas; foi o Dnocs que, pioneiramente, criou e desenvolveu no semi árido a piscicultura e a aquicultura; foi o Dnocs que trouxe e instalou aqui os primeiros projetos de irrigação; foi o Dnocs, também, que, até meados dos anos 70, juntou o maior banco de inteligências do País - seus engenheiros, todos geniais, como Guimarães Duque, Luiz Vieira e Paulo Guerra, produziam constante literatura técnica disputada e adotada pelas universidades daqui e d´alhures.
De 1909 a fins de 1970, o DNOCS foi um organismo técnico. Eminentemente técnico. De lá até esta data, por falta de um Plano Nacional de Desenvolvimento Regional, o Dnocs patina na areia movediça dos interesses políticos, que nada têm a ver com os arranjos institucionais próprios da boa política. Há hoje uma luta renhida dos técnicos do DNOCS, que trabalham para que sua instituição retome as suas origens. Mas para isso será necessário entender os novos desafios do DNOCS.
Fonte Coluna Egidio Serpa/ Diário do Nordeste
Foi o DNOCS que desenhou e implantou a malha rodoviária básica da região; foi ele que construiu as grandes e médias barragens do sertão nordestino e também suas primeiras hidrelétricas; foi o Dnocs que, pioneiramente, criou e desenvolveu no semi árido a piscicultura e a aquicultura; foi o Dnocs que trouxe e instalou aqui os primeiros projetos de irrigação; foi o Dnocs, também, que, até meados dos anos 70, juntou o maior banco de inteligências do País - seus engenheiros, todos geniais, como Guimarães Duque, Luiz Vieira e Paulo Guerra, produziam constante literatura técnica disputada e adotada pelas universidades daqui e d´alhures.
De 1909 a fins de 1970, o DNOCS foi um organismo técnico. Eminentemente técnico. De lá até esta data, por falta de um Plano Nacional de Desenvolvimento Regional, o Dnocs patina na areia movediça dos interesses políticos, que nada têm a ver com os arranjos institucionais próprios da boa política. Há hoje uma luta renhida dos técnicos do DNOCS, que trabalham para que sua instituição retome as suas origens. Mas para isso será necessário entender os novos desafios do DNOCS.
Fonte Coluna Egidio Serpa/ Diário do Nordeste
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Capitalismo da miséria I
CAPITALISMO DA MISÉRIA, EDUCAÇÃO SUPERIOR E CONTROLE SOCIAL. A PROPÓSITO DA UFFS.
Longe de nós supor ser o nosso capitalismo da miséria transformável em seu oposto através de reformas capitalistas sucessivas. Esta operação metafísica já foi tentada explicitamente no Brasil tanto pela revolução de trinta como pelo desenvolvimentismo no pós-guerra.
Outras operações desse tipo foram mundialmente concebidas por várias correntes ideológicas da filosofia, política e economia política do século XX. Todas igualmente fracassadas e pelo mesmo motivo: a impossibilidade histórica de conter e educar o capital dentro de limites socialmente justos e humanamente necessários.
A teoria do comunismo científico do socialismo real, nos anos setenta, proclamou a superação do estado via sua máxima potenciação, assim como a disciplina plena do capital através do planejamento; a teoria do estado do bem-estar social de matriz keynesiana supôs haver encontrado o modo final de domesticação do capital via teoria da contenção infinita dos ciclos econômicos e da justiça social com abundância consumista através do controle da demanda capitalista; de igual modo o desenvolvimentismo teorizou realizar uma revolução capitalista consentida, realizadora da soberania nacional e da autonomia econômica sem revolução capitalista radical. Esta tripla expressão metafísica da transformação social funda-se na incompreensão da categoria capital como categoria societária mundialmente reitora da ordem capitalista e irreformável posto que seu modo imanente de ser, seu caráter ontológico, está em destruir sistematicamente todos os limites a ela impostos, inclusive o limite da autodestruição da humanidade.
Nas sociedades capitalistas evoluídas através de revoluções burguesas conservadoras – a maioria esmagadora delas, aliás, pois as revoluções burguesas radicais na história do capitalismo são somente quatro: a holandesa, a inglesa, a norte-americana e a francesa –, em especial as de matriz colonial, tal como as geradas a partir do Novo Mundo ibérico, a superação dos capitalismos da miséria ali constituídos é obra capitalista impossível.
Serem sociedades capitalistas da miséria é sua forma histórica necessária, característica, impossível de ser superada a não ser por revolução anti-capitalista, tal como historicamente ocorreu no caso exemplar da revolução cubana. As sucessivas e infinitas revoluções e contra-revoluções políticas ali ocorridas desde a Independência em nada detiveram a marcha do capital.
Assim é que, no Brasil, à revolução de trinta sucede-se a contra-revolução de 64, a qual dará lugar à proclamação in democracia de suas exéquias somente na primeira fala do trono de FHC, em 1995, o qual por sua vez é sucedido pelo governo de Lula que se elege contra o octanato fernandista.
Entretanto, apesar das sucessivas tempestades políticas, de 1930 a este ano da graça de 2009, no terreno da reprodução do capital temos a ascensão vertiginosa do capital industrial e deste ao financeiro e aos balbuceios imperialistas e promessas de segunda independência via capitalização do pré-sal e realização enfim do Brasil Potência desejado mas adiado sob a ditadura e conseqüente entrada no rol dos detentores de complexos militar-industriais agora subordinando a republica à interdependência com a França. Nem Sarney, ou Collor e muito menos FHC ou Lula conceberam controles ou reversão ao capital financeiro em sua marcha imperial-hegemônica acelerada. Ao contrário, foram todos a seu modo, parteiros da modernidade subalterna e monopolista.
O sentido de ascensão à condição de potência monopolista e mantenedora da miséria capitalista por meio da trituração sistemática e metódica do poder popular, democrático, anti-monopolista e anti-capitalista revela o caráter da evolução das revoluções burguesas conservadoras: eternamente abertas e subordinadas às exigências do capital mundial, conservadoras das classes pretéritas aburguesadas (coloniais) e afirmadora das novas classes burguesas a elas aliadas (em especial as velhas e novas pequenas burguesias), devastadoras das dimensões emancipadoras das classes populares e proletárias cronicamente miserabilizadas. Enfim, capitalismo da miséria, capitalismo subordinado, miserabilidades acumuladas em fases sucessivas e necessariamente irresolvidas.
Tudo isto para dizer que o espaço regional da UFFS está concebido como sendo de luta anti-capitalista, de luta social, de possibilidades transformadoras. De experiência teórico-prática, de formação de produtores e reprodutores de saber não somente para as demandas imediatas da produção de mercadorias para o mercado regional ou mesmo internacional, mas para as necessidades vitais urgentes e inadiáveis das maiorias trabalhadoras e da humanidade.
Que não se conta somente com poderosos inimigos externos, mas também e talvez principalmente com poderosas ideologias inimigas no bloco das forças transformadoras.
Que o controle social não só deverá estar presente em todas as instâncias da ação teórico-prática da UFFS, mas deverá ser um processo social construtor de novas e poderosas relações sócio-econômicas, culturais, políticas e institucionais capazes de imprimir marca humana emancipadora à UFFS, à sua produção e reprodução do saber e à sua conseqüente implicação transformadora regional.
Eis algumas notas para a posterior confecção de nossa constituição, aquela que instituirá o controle social.
São Paulo-Laranjeiras do Sul, 05 de outubro de 2009.
Longe de nós supor ser o nosso capitalismo da miséria transformável em seu oposto através de reformas capitalistas sucessivas. Esta operação metafísica já foi tentada explicitamente no Brasil tanto pela revolução de trinta como pelo desenvolvimentismo no pós-guerra.
Outras operações desse tipo foram mundialmente concebidas por várias correntes ideológicas da filosofia, política e economia política do século XX. Todas igualmente fracassadas e pelo mesmo motivo: a impossibilidade histórica de conter e educar o capital dentro de limites socialmente justos e humanamente necessários.
A teoria do comunismo científico do socialismo real, nos anos setenta, proclamou a superação do estado via sua máxima potenciação, assim como a disciplina plena do capital através do planejamento; a teoria do estado do bem-estar social de matriz keynesiana supôs haver encontrado o modo final de domesticação do capital via teoria da contenção infinita dos ciclos econômicos e da justiça social com abundância consumista através do controle da demanda capitalista; de igual modo o desenvolvimentismo teorizou realizar uma revolução capitalista consentida, realizadora da soberania nacional e da autonomia econômica sem revolução capitalista radical. Esta tripla expressão metafísica da transformação social funda-se na incompreensão da categoria capital como categoria societária mundialmente reitora da ordem capitalista e irreformável posto que seu modo imanente de ser, seu caráter ontológico, está em destruir sistematicamente todos os limites a ela impostos, inclusive o limite da autodestruição da humanidade.
Nas sociedades capitalistas evoluídas através de revoluções burguesas conservadoras – a maioria esmagadora delas, aliás, pois as revoluções burguesas radicais na história do capitalismo são somente quatro: a holandesa, a inglesa, a norte-americana e a francesa –, em especial as de matriz colonial, tal como as geradas a partir do Novo Mundo ibérico, a superação dos capitalismos da miséria ali constituídos é obra capitalista impossível.
Serem sociedades capitalistas da miséria é sua forma histórica necessária, característica, impossível de ser superada a não ser por revolução anti-capitalista, tal como historicamente ocorreu no caso exemplar da revolução cubana. As sucessivas e infinitas revoluções e contra-revoluções políticas ali ocorridas desde a Independência em nada detiveram a marcha do capital.
Assim é que, no Brasil, à revolução de trinta sucede-se a contra-revolução de 64, a qual dará lugar à proclamação in democracia de suas exéquias somente na primeira fala do trono de FHC, em 1995, o qual por sua vez é sucedido pelo governo de Lula que se elege contra o octanato fernandista.
Entretanto, apesar das sucessivas tempestades políticas, de 1930 a este ano da graça de 2009, no terreno da reprodução do capital temos a ascensão vertiginosa do capital industrial e deste ao financeiro e aos balbuceios imperialistas e promessas de segunda independência via capitalização do pré-sal e realização enfim do Brasil Potência desejado mas adiado sob a ditadura e conseqüente entrada no rol dos detentores de complexos militar-industriais agora subordinando a republica à interdependência com a França. Nem Sarney, ou Collor e muito menos FHC ou Lula conceberam controles ou reversão ao capital financeiro em sua marcha imperial-hegemônica acelerada. Ao contrário, foram todos a seu modo, parteiros da modernidade subalterna e monopolista.
O sentido de ascensão à condição de potência monopolista e mantenedora da miséria capitalista por meio da trituração sistemática e metódica do poder popular, democrático, anti-monopolista e anti-capitalista revela o caráter da evolução das revoluções burguesas conservadoras: eternamente abertas e subordinadas às exigências do capital mundial, conservadoras das classes pretéritas aburguesadas (coloniais) e afirmadora das novas classes burguesas a elas aliadas (em especial as velhas e novas pequenas burguesias), devastadoras das dimensões emancipadoras das classes populares e proletárias cronicamente miserabilizadas. Enfim, capitalismo da miséria, capitalismo subordinado, miserabilidades acumuladas em fases sucessivas e necessariamente irresolvidas.
Tudo isto para dizer que o espaço regional da UFFS está concebido como sendo de luta anti-capitalista, de luta social, de possibilidades transformadoras. De experiência teórico-prática, de formação de produtores e reprodutores de saber não somente para as demandas imediatas da produção de mercadorias para o mercado regional ou mesmo internacional, mas para as necessidades vitais urgentes e inadiáveis das maiorias trabalhadoras e da humanidade.
Que não se conta somente com poderosos inimigos externos, mas também e talvez principalmente com poderosas ideologias inimigas no bloco das forças transformadoras.
Que o controle social não só deverá estar presente em todas as instâncias da ação teórico-prática da UFFS, mas deverá ser um processo social construtor de novas e poderosas relações sócio-econômicas, culturais, políticas e institucionais capazes de imprimir marca humana emancipadora à UFFS, à sua produção e reprodução do saber e à sua conseqüente implicação transformadora regional.
Eis algumas notas para a posterior confecção de nossa constituição, aquela que instituirá o controle social.
São Paulo-Laranjeiras do Sul, 05 de outubro de 2009.
domingo, 6 de setembro de 2009
Meio Ambiente entra no discurso da Campanha de 2010
Após a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), mais dois pré-candidatos à Presidência - o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), e o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) - ajustaram nesta semana o foco para as questões de meio ambiente. O tucano, com viagem marcada à Amazônia, disse sábado, 5, em Belo Horizonte que “qualquer pessoa que queira pensar o Brasil com seriedade para as próximas décadas tem de incluir a questão da sustentabilidade no seu programa”. Ciro, no Rio, declarou que em 2010 discursos e planos de governo terão de dar “conteúdo” ao termo sustentabilidade.
O tema ganha destaque na mesma semana em que a ex-ministra do Meio Ambiente e senadora Marina Silva trocou o PT pelo PV, com o plano de disputar a Presidência. Na quarta-feira, Dilma, nome preferido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a sucessão, havia defendido o respeito aos mananciais e ao meio ambiente, em discurso no Itamaraty. “No centro da vida estão nossos rios.”
Na véspera do Dia da Amazônia, após assinar decreto que regulamenta a nova Lei Florestal do Estado, Aécio disse ontem que o desafio é encontrar fórmulas de desenvolvimento sustentável. Falou, ainda, de desmatamento. “Não diria que temos motivos para comemorar, mas temos hoje instrumentos que não tínhamos para fiscalizar, punir e inibir o desmatamento, o que já vem ocorrendo”, afirmou. “O Brasil, por mais que desmate muito além do razoável, vive um processo, segundo os últimos dados, de redução do desmatamento. É positivo.”
Fonte: O ESTADO
O tema ganha destaque na mesma semana em que a ex-ministra do Meio Ambiente e senadora Marina Silva trocou o PT pelo PV, com o plano de disputar a Presidência. Na quarta-feira, Dilma, nome preferido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a sucessão, havia defendido o respeito aos mananciais e ao meio ambiente, em discurso no Itamaraty. “No centro da vida estão nossos rios.”
Na véspera do Dia da Amazônia, após assinar decreto que regulamenta a nova Lei Florestal do Estado, Aécio disse ontem que o desafio é encontrar fórmulas de desenvolvimento sustentável. Falou, ainda, de desmatamento. “Não diria que temos motivos para comemorar, mas temos hoje instrumentos que não tínhamos para fiscalizar, punir e inibir o desmatamento, o que já vem ocorrendo”, afirmou. “O Brasil, por mais que desmate muito além do razoável, vive um processo, segundo os últimos dados, de redução do desmatamento. É positivo.”
Fonte: O ESTADO
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Grande sertão: veredas do acaso
Grande sertão: veredas do acaso
Honório D'Avila Pereira Soares
“Lula tenta reduzir o campo eleitoral a um plebiscito sobre seu governo, a uma disputa entre sua candidata e o candidato do PSDB. Aparece Ciro Gomes. Lula articula de todas as maneiras para neutralizá-lo. Sem sucesso até agora. Aparece Marina Silva. Difícil imaginar o que Lula poderia fazer. O sistema político enclausurado que se cuide. O que está em jogo não são mais dedos e anéis.” ( Marcos Nobre, FSP 11-08-09, A-2)
Escrevi este texto há dois dias, mas uma sinusite e suas maléficas consequencias para meu trato respiratório me afastaram desta lida de escriba ao teclado. Tudo está escrito no caderninho nº 69. Mas ontem ela escreveu sua coluna na Folha e hoje, ali mesmo, outro autor despejou suas conjeturas. Então obriguei-me a pelo menos começar a transcrição. É o que faço nestas já altas horas da noite, entrado o dia 12 já em uma hora.
O golpismo peéssedebêdemista repete Lupicínio, em Estes moços:
“... fogem da lua por causa do escuro e
Vão ao inferno em busca de luz.”
Incapazes de luta política aberta a escancarar seus interesses supostamente contrários aos do presidente do senado, se comprazem em forjar um mar de lama da vida privada e micro-pública do velho coronel. Repetem a prática venenosa das minorias golpistas do Brasil do pós-guerra. Devido ao fato de os pobres porcos serem antigamente, desde o longínquo passado, criados na lama e alimentados dos dejetos e sobras dos humanos e outras animálias, os judeus não os comiam por impuros que talvez fossem. Do mesmo modo o tecido ideológico dos animais políticos senatoriais que chafurdam na viscosidade de seus dejetos privados, para-públicos e públicos deve estar vedado às maiorias trabalhadoras esfomeadas, sob pena de fatal intoxicação.
O golpismo das minorias liberais parece renascer neste novo ciclo da vida democrática de nossa autocracia burguesa. Parece ser mesmo um padrão reprodutivo esquizóide de sua pequena política parlamentar. Isso se deve ao fato de que suas alucinações paranóicas ao se conceberem ungidos das maiores verdades ocidentais da política, da economia, dos costumes, enfim, de tudo e sobre tudo, arrasta pelo rabo uma penca de desejos e feitos inconfessáveis, crimes de lesa-pátria e lesa-humanidade. A tal ponto que após cada uma das suas feitorias históricas macabras a república dos não-esquisóides se visse obrigada a sucessivamente reintegra-los ao convívio dos normais através de uma profusão de anistias. Até que afinal, depois de voltarem ao poder em 1964, eles próprios tiveram de se autoanistiar para poderem retornar ao mundo das liberdades civis depois de 21 anos de sua ditadura política e econômica. E permanecemos convivendo com essa horda de celerados autoanistiados, zumbis sob sursis e muito vivos.
Uma pena que personalidades importantes do iluminismo social tenham aderido aos chefetes das pocilgas senatoriais, ao exército liberal dos besouros vira-bosta.
Pensando cá comigo nas artes do acaso a fabricar surpresas demarcadoras de fases e épocas, na triste batalha do provecto Sarney contra a besourada ensandecida, eis que veio-me à mente a possibilidade de um fantástico acaso, o qual em ocorrendo, teria tudo para mudar o destino do país.
Não seria nada do que anda por aí no mundo midiático besoural, qual seja, a renúncia de Sarney, o súbito declínio da popularidade do Lula, o naufrágio da candidata imperativa deste e coisas pelo estilo. Não penso em nenhum acaso catastrófico.
Ocorre haver-me chamado vivamente a atenção a feliz idéia do PV em convidar a ex-ministra Marina Silva para ser candidata desta sigla nas eleições presidenciais de 2010. Dizem que em pesquisa encomendada por essa agremiação a senhora Marina alcançara 12% das preferências populares.
Dado esse fato pensei com os meus botões a possível ocorrência de uma série de eventos, os quais, vistos desde aqui e agora seriam completamente imprevistos.
Imaginemos em primeiro lugar que Marina Silva se autoproclamasse desejosa de candidatar-se pelo PT, partido tão seu quanto do senhor presidente e da senhora ministra-candidata imperial. Causaria comoção duradoura, reverberações incontroláveis e possibilidade muito real de esvanecimento da ministra candidatada. Dado isso ser intolerável, intragável mesmo para o campo majoritário e seu chefe máximo, à ex-ministra poderia não só ser negada a sua candidatura como, bem antes disso, ela vir a ser desligada do PT. A celeuma em torno disso levantaria poeira no terreiro do arraial petista, a qual poderia de vez ativar os espasmos alérgicos das até aqui cordatas alas à esquerda do imperante centro social cristão pró-monopolista. Estes sintomas poderiam até rachar a já frágil unanimidade dílmica e acarrear a centro-esquerda petista para o apoio declarado à candidata Marina Silva, mesmo esta sendo obrigada a sair do PT.
Este processo que embandeira o emancipacionismo social dos partidários e amigos da sustentabilidade ambiental poderia levar o emancipacionismo socialista do PSOL - por mais etéreo-cristão que ele seja- e demais forças desse campo a pensar a grande política e devido a isso acometer a impossível candidatura de Luisa Helena a vice de Marina.
Imaginemos mais. Suponhamos que elas, amigas que são, viessem a gostar mesmo dessa dobradinha, muito mais séria que a Jan-Jan naqueles idos de 60. Da centro esquerda sustentabilista antimonopolista à extrema esquerda comunista, o carro Marina-Helena carregaria as tropas. Mais a daqueles próceres recém neo-liberais sociais ex-comunistas , ardentes de desejos de livrarem-se do abraço de urso do mascate-mor, rei todopoderoso nas suas altas alturas da opinião pública.
As tropas unidas de todo esse espectro bem poderiam romper a barreira dos 15% do eleitorado através de uma campanha de confetes rosa-encarnados a percorrer temas tão significativos quanto a Amazônia, a transposição do São Francisco, o rearmamento afrancesado, o banqueiro dantas-mensalista, o pré-sal para os brasileiros e a universalização republicana da república, mais a esquecida reforma agrária e a subtração do ensino fundamental aos humores colonial-municipais e tantas outras reformas ainda mais dramáticas que aquelas reformas de base que a contra-revolução liberal-capitalista supôs um dia haver enterrado em local tão incógnito quanto as ossadas dos meninos guerrilheiros por ela executados e com estacas no coração dos derrotados de 64.
Esta casual dobradinha do capeta eletrizaria este Brasil modorrento sob a feroz adesão pequeno-burguesa aos marcos da contra-revolução monopolista vitoriosa e reinante com e sem os militares.
As encapetadas talvez pudessem soldar a emancipação social sustentabilista dos pequeno burgueses, esmagada pelo abraço Pac-empreiteiro com as emancipações nacional e dos trabalhadores, criando-se assim um novo bloco histórico das emancipações.
Confesso que pensei nisso num lampejo, de olhos bem abertos e seguro de que este ato de grandeza, lucidez e inteligência está neste momento bem ao alcance de nossas mãos, de nossos destinos.
As meninas diabas dos cafundós bem que poderiam nos dar essa alegria tão plena de esperanças. Veja o que pode o acaso. Não que eu creia na salvação eleitoral, mas o acaso pertence à história e tem nela poder imenso.
Naquela mesa de bar, talvez no exílio uruguaio, os derrotados de várias gerações, Jango, Boal, Brizola, Prestes, Chico Mendes e Betinho, acompanhados por Drummond, Jorge Amado e Neruda, Allende e tantos outros amigos, tenho certeza de que fazem um brinde por esse acaso.
Amém.
Honório D'Avila Pereira Soares
“Lula tenta reduzir o campo eleitoral a um plebiscito sobre seu governo, a uma disputa entre sua candidata e o candidato do PSDB. Aparece Ciro Gomes. Lula articula de todas as maneiras para neutralizá-lo. Sem sucesso até agora. Aparece Marina Silva. Difícil imaginar o que Lula poderia fazer. O sistema político enclausurado que se cuide. O que está em jogo não são mais dedos e anéis.” ( Marcos Nobre, FSP 11-08-09, A-2)
Escrevi este texto há dois dias, mas uma sinusite e suas maléficas consequencias para meu trato respiratório me afastaram desta lida de escriba ao teclado. Tudo está escrito no caderninho nº 69. Mas ontem ela escreveu sua coluna na Folha e hoje, ali mesmo, outro autor despejou suas conjeturas. Então obriguei-me a pelo menos começar a transcrição. É o que faço nestas já altas horas da noite, entrado o dia 12 já em uma hora.
O golpismo peéssedebêdemista repete Lupicínio, em Estes moços:
“... fogem da lua por causa do escuro e
Vão ao inferno em busca de luz.”
Incapazes de luta política aberta a escancarar seus interesses supostamente contrários aos do presidente do senado, se comprazem em forjar um mar de lama da vida privada e micro-pública do velho coronel. Repetem a prática venenosa das minorias golpistas do Brasil do pós-guerra. Devido ao fato de os pobres porcos serem antigamente, desde o longínquo passado, criados na lama e alimentados dos dejetos e sobras dos humanos e outras animálias, os judeus não os comiam por impuros que talvez fossem. Do mesmo modo o tecido ideológico dos animais políticos senatoriais que chafurdam na viscosidade de seus dejetos privados, para-públicos e públicos deve estar vedado às maiorias trabalhadoras esfomeadas, sob pena de fatal intoxicação.
O golpismo das minorias liberais parece renascer neste novo ciclo da vida democrática de nossa autocracia burguesa. Parece ser mesmo um padrão reprodutivo esquizóide de sua pequena política parlamentar. Isso se deve ao fato de que suas alucinações paranóicas ao se conceberem ungidos das maiores verdades ocidentais da política, da economia, dos costumes, enfim, de tudo e sobre tudo, arrasta pelo rabo uma penca de desejos e feitos inconfessáveis, crimes de lesa-pátria e lesa-humanidade. A tal ponto que após cada uma das suas feitorias históricas macabras a república dos não-esquisóides se visse obrigada a sucessivamente reintegra-los ao convívio dos normais através de uma profusão de anistias. Até que afinal, depois de voltarem ao poder em 1964, eles próprios tiveram de se autoanistiar para poderem retornar ao mundo das liberdades civis depois de 21 anos de sua ditadura política e econômica. E permanecemos convivendo com essa horda de celerados autoanistiados, zumbis sob sursis e muito vivos.
Uma pena que personalidades importantes do iluminismo social tenham aderido aos chefetes das pocilgas senatoriais, ao exército liberal dos besouros vira-bosta.
Pensando cá comigo nas artes do acaso a fabricar surpresas demarcadoras de fases e épocas, na triste batalha do provecto Sarney contra a besourada ensandecida, eis que veio-me à mente a possibilidade de um fantástico acaso, o qual em ocorrendo, teria tudo para mudar o destino do país.
Não seria nada do que anda por aí no mundo midiático besoural, qual seja, a renúncia de Sarney, o súbito declínio da popularidade do Lula, o naufrágio da candidata imperativa deste e coisas pelo estilo. Não penso em nenhum acaso catastrófico.
Ocorre haver-me chamado vivamente a atenção a feliz idéia do PV em convidar a ex-ministra Marina Silva para ser candidata desta sigla nas eleições presidenciais de 2010. Dizem que em pesquisa encomendada por essa agremiação a senhora Marina alcançara 12% das preferências populares.
Dado esse fato pensei com os meus botões a possível ocorrência de uma série de eventos, os quais, vistos desde aqui e agora seriam completamente imprevistos.
Imaginemos em primeiro lugar que Marina Silva se autoproclamasse desejosa de candidatar-se pelo PT, partido tão seu quanto do senhor presidente e da senhora ministra-candidata imperial. Causaria comoção duradoura, reverberações incontroláveis e possibilidade muito real de esvanecimento da ministra candidatada. Dado isso ser intolerável, intragável mesmo para o campo majoritário e seu chefe máximo, à ex-ministra poderia não só ser negada a sua candidatura como, bem antes disso, ela vir a ser desligada do PT. A celeuma em torno disso levantaria poeira no terreiro do arraial petista, a qual poderia de vez ativar os espasmos alérgicos das até aqui cordatas alas à esquerda do imperante centro social cristão pró-monopolista. Estes sintomas poderiam até rachar a já frágil unanimidade dílmica e acarrear a centro-esquerda petista para o apoio declarado à candidata Marina Silva, mesmo esta sendo obrigada a sair do PT.
Este processo que embandeira o emancipacionismo social dos partidários e amigos da sustentabilidade ambiental poderia levar o emancipacionismo socialista do PSOL - por mais etéreo-cristão que ele seja- e demais forças desse campo a pensar a grande política e devido a isso acometer a impossível candidatura de Luisa Helena a vice de Marina.
Imaginemos mais. Suponhamos que elas, amigas que são, viessem a gostar mesmo dessa dobradinha, muito mais séria que a Jan-Jan naqueles idos de 60. Da centro esquerda sustentabilista antimonopolista à extrema esquerda comunista, o carro Marina-Helena carregaria as tropas. Mais a daqueles próceres recém neo-liberais sociais ex-comunistas , ardentes de desejos de livrarem-se do abraço de urso do mascate-mor, rei todopoderoso nas suas altas alturas da opinião pública.
As tropas unidas de todo esse espectro bem poderiam romper a barreira dos 15% do eleitorado através de uma campanha de confetes rosa-encarnados a percorrer temas tão significativos quanto a Amazônia, a transposição do São Francisco, o rearmamento afrancesado, o banqueiro dantas-mensalista, o pré-sal para os brasileiros e a universalização republicana da república, mais a esquecida reforma agrária e a subtração do ensino fundamental aos humores colonial-municipais e tantas outras reformas ainda mais dramáticas que aquelas reformas de base que a contra-revolução liberal-capitalista supôs um dia haver enterrado em local tão incógnito quanto as ossadas dos meninos guerrilheiros por ela executados e com estacas no coração dos derrotados de 64.
Esta casual dobradinha do capeta eletrizaria este Brasil modorrento sob a feroz adesão pequeno-burguesa aos marcos da contra-revolução monopolista vitoriosa e reinante com e sem os militares.
As encapetadas talvez pudessem soldar a emancipação social sustentabilista dos pequeno burgueses, esmagada pelo abraço Pac-empreiteiro com as emancipações nacional e dos trabalhadores, criando-se assim um novo bloco histórico das emancipações.
Confesso que pensei nisso num lampejo, de olhos bem abertos e seguro de que este ato de grandeza, lucidez e inteligência está neste momento bem ao alcance de nossas mãos, de nossos destinos.
As meninas diabas dos cafundós bem que poderiam nos dar essa alegria tão plena de esperanças. Veja o que pode o acaso. Não que eu creia na salvação eleitoral, mas o acaso pertence à história e tem nela poder imenso.
Naquela mesa de bar, talvez no exílio uruguaio, os derrotados de várias gerações, Jango, Boal, Brizola, Prestes, Chico Mendes e Betinho, acompanhados por Drummond, Jorge Amado e Neruda, Allende e tantos outros amigos, tenho certeza de que fazem um brinde por esse acaso.
Amém.
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