O PT e a profecia de Golbery
Marcelo Micke Doti
A estrutura política da qual o Partido dos Trabalhadores (PT) passou a fazer parte na forma como profetizou Golbery[1] significa a também a forma pela qual o mesmo está distante dos projetos emancipacionistas. E não poderia ser diferente em função de vários motivos e muitas determinações. Assim o que se tem a fazer para entender todo o processo político, social e econômico aqui em jogo é buscar os muitos determinantes históricos (quase infinitos) da própria história do desenvolvimento econômico do país como da constituição da política da modernidade, nas palavras do príncipe dos sociólogos.
Evidente que a busca de todo o processo de desenvolvimento na forma de totalidade articulada requer muito mais do que um artigo. Precisa-se de muitos estudos parciais que depois se vão a completar na forma de totalidade articulada. Em sentido metodológico (tanto de pesquisa como de exposição nas palavras e ideias de Marx do posfácio à 2ª edição de O Capital) significa constituir estudos de síntese de totalidades crescentes e cada vez mais integradas até chegar em uma totalidade que tem vida por si só. Neste ponto o pensado se aproxima quase perfeitamente do concreto e a exposição pareceria uma construção a priori, pois muito complexa como a realidade. É quase como se estivesse a ler um romance no qual o autor, soberano e absoluto sobre seus personagens, decide a totalidade da vida e da morte, dos destinos e dos sofrimentos. Esta metodologia é aquela referida por Marx.
No entanto as questões metodológicas aqui não nos importam muito, a não ser como fundo no qual se procura fazer a busca histórica, ou seja, seguir cautelosamente os conceitos e suas possíveis articulações e mesmo deixar alguns em suspenso, em uma espécie de limbo. Dali ele sairá, sem dúvida, mas tão somente quando já puder estar integrado com outros que decidam a construção da totalidade. Um desses conceitos para se ficar no limbo da espera totalizante seria (e é) entender o próprio processo de formação histórica do PT e seus grupos formadores. A partir desse processo poderia se verificar até que ponto o partido teve (ou tem?) uma trajetória socialista e emancipacionista. Muito provavelmente a resposta é de uma negativa muito tortuosa. Tortuosa por parecer que avançava como a história do desenvolvimento e da modernização do Brasil o faz e fez. Parceria que o PT tem todos os determinantes para se colocar como esquerda emancipacionista. Porém percebemos o processo de reversão e de coadunação própria com o mesmo desenvolvimento na forma de formação de amplos mercados internos. Aliás, isso constitui um dos orgulhos atuais para o desenvolvimento capitalista do país.[2]
Parte dessa trajetória acima referida poderia ser percebida ou mesmo – em linguagem que metaforiza a subjetividade – “sentida” em entrevistas do próprio Luiz Inácio quando referia desprezo à teoria. Não é uma questão de aqui articular um conjunto de ideias entre linguagem e política, ou melhor, entre o uso da palavra e como a mesma expressa conceitos sociais e políticos (neste caso muito mais do que qualquer interpretação “psicologizante” e errônea de muita explicação dos fatos sociais), mas esse desprezo é sintoma político sim e em ampla medida. Por quê? Porque a busca de todo processo emancipacionista exige profunda formulação teórica no entendimento do movimento do real. No caso do Brasil, da forma de seus desenvolvimentos histórico e político. Trata-se de elevar ao concreto pensado o próprio concreto. Tarefa teórica altamente complexa, profunda, sofisticada e totalizante. E em hipótese alguma se tem aqui qualquer preconceito baixo e pequeno burguês de associar Luiz Inácio e sua formação (isso requer outro artigo oportuno sobre um determinante esquecido por alguns na opção política para 2010: o preconceito). Apenas tem-se que declarações desse tipo resumem o caminho que já viria ser traçado pelo PT. Talvez sintomático disso (e como acima referido, as palavras, a linguagem, muito além de qualquer psicologia de verificação do ego e sim como o próprio em nós que liga mais profundamente do que se imagina o indivíduo à sociedade) seja uma frase de Luiz Inácio na campanha de 1989 sobre o direito de comer macarrão com frango aos domingos para todos. Isso não se transmudaria hoje de uma necessidade básica (comida, direito humano) em geladeiras, fogões, DVDs e eletro-eletrônicos cada vez mais sofisticados (consumo crescentemente “aburguesado”)?
Dentro do processo de entender a história do PT estaria também a forma como grupos mais radicais forma sendo excluídos. Desde o PSOL mais novo nesse processo de exclusão e de longe o menos radical (veja-se seu estatuto e sua revolução pequeno burguesa) até PSTU (antiga Convergência), etc. Não se tem aqui a intenção de buscar toda a história de constituição do mesmo e como essa história é a própria história de formação da elite atual. Apenas levanta-se uma questão ao mesmo tempo essencial e histórica como também metodológica no sentido da composição da totalidade.
No entanto todo esse processo se reverte em outro ponto que cumpre a profecia. O processo de distanciamento de um possível e antigo discurso mais emancipacionista para a conformação com a realidade: a hegeliana “reconciliação com a realidade” (que Löwy usa na sua Sociologia dos Intelectuais Revolucionários para falar do abraço de Lukács com Stalin). A pergunta é: havia algum projeto nesse sentido? A resposta a isso requer a pesquisa acima e novamente uma tortuosa negativa no sentido de que esse projeto nunca existiu, a não ser para alguns grupos minoritários.
Neste ponto pode-se verificar que a história interna referida anteriormente é importante, mas também como referido, parte da totalidade, pedaço da construção da totalidade. Por quê? Neste caso não por ser uma peça que se encaixa com outras. Se assim o fosse a totalidade seria um quebra-cabeças de soma e não de articulação crescente (na qual 1 + 1 > 2, como nas palavras de Beto Guedes em Sal da Terra). Pedaço da totalidade, pois a história interna seria uma luta encarniçada para se chegar ao poder de Estado desde que reconciliado com a realidade. A guerra e as vítimas, o campo de batalha plasmado e empapado de sangue era o duro caminho a ser percorrido pela história interna do partido para que viesse a se constituir como partido da ordem. Por esse modo o PT afastou-se cada vez mais de qualquer projeto emancipacionista, mas não das aspirações populares. Isso é outra história e quanto a essa seu projeto é perfeito e totalmente integrado. As aspirações populares são simples e algo muito diretas. O PT metamorfoseado que atende a essas aspirações simples é resultado de todo o processo de sua constituição interna em confronto com a realidade externa com a qual teve que se haver. Processo esse de formação de elite representativa de uma classe (a pequena e a alta burguesias, especialmente a financeira). A síntese para se entender o atual partido da ordem é, então, entender como o mesmo transformou-se em elite de uma classe.
Este conceito final é fundamental uma vez que a análise de classes da sociedade quando em confronto com a realidade política e da reprodução da sociedade como totalidade precisa do conceito de elite da classe. O motivo para isso é o próprio processo de formação da realidade social. Esta só existe através de mediações, caso contrário cada determinante levaria a outro na forma de um mecanismo semelhante ao materialismo mecanicista. Da mesma forma o processo de análise de classes e partidos. Os partidos políticos ordinários (no sentido de ordem!) através dos processos legais e institucionais da Realpolitik formam-se como elites representantes de uma classe: não existe um espelho de reflexo perfeito entre a classe e o partido. Isso seria a ideia da infra-estrutura refletindo-se perfeitamente na superestrutura de forma mecânica. Cairíamos em um processo de materialismo mecanicista através de uma volta que parceria negar o mesmo. Somente entenderemos perfeitamente a profecia de Golbery se compreenderemos como o PT se fez a si mesmo e ao mesmo tempo foi arrastado pela história do nosso desenvolvimento socioeconômico para ser uma elite.
[1] Ver o artigo de José de Souza Martins, “E o general Golbery, afinal, não se enganou”, no Estados de São Paulo, 20 de julho de 2009, suplemento Aliás.
[2] Ver reportagem da Folha de São Paulo do dia 28 de julho de 2009, “Recessão no Brasil acabou em maio, avaliam bancos” na qual se mostra o poder do mercado interno no processo de sustentação do consumo e como motor da expansão econômica do país.
sábado, 1 de agosto de 2009
sexta-feira, 24 de julho de 2009
A Quadrilha no Santa Lúcia
Marcelo Micke Doti
Todo mês de junho e na sua continuidade, julho, ocorrem as festas juninas e hoje já denominadas também “julinas” (que não tem relação alguma com uma pretensa celebração à Júlio Cesar). Este fato é interessante. Como no mês de julho são as férias escolares, então as festas acabam se arrastando para este mês. Originalmente, no campo, nos espaços agrícolas, a “roça” com falado pelo linguajar daqueles que vivem este espaço diferenciado, as festas eram dias santificados e, portanto, feriado. “Guardava-se” o dia. No entanto, o Brasil modernizou-se, tornou-se industrial e urbano e não mais é possível “guardar” o dia santo. Ótimo para o príncipe dos sociólogos que constantemente contrapunha o Brasil do atraso, arcaico, ao Brasil moderno. Por esse expediente o referido também falava das classes e dos espaços do país: o país do atraso e da modernidade. Não existem classes, apenas forças sociais envolvidas no bem-estar (e este é a modernidade, claro!). Assim, encurtando o “causo”, acaba ficando muito mais fácil e prático que seja em julho. O prático aqui com forte conotação bastante bem determinada: não atrapalhar do trabalho vendido ao capital.
Santa Lúcia é um bairro periférico em Araraquara. Às vezes é difícil falar em periferia em uma cidade de médio porte. No entanto, como estas são aquelas de maior potencial de crescimento no mundo atual (deslocamento e desconcentração industrial mais fáceis devidos aos “incentivos produtivos” ao capital), devemos esclarecer a localização de suas partes constitutivas. Mesmo porque cada parte do espaço representa uma parte da sociedade e, no caso do Santa Lúcia, vemos claramente através de suas casas e de sua ruas a sua estrutura social. Essa é a segregação espacial como fenômeno geográfico-social. A estrutura social desse bairro é muito clara: trabalhadores dos mais diversos labores e salários e, em sua grande maioria, vivendo e sobrevivendo para serem pequeno-burgueses. Sonho consumista de todo estrato trabalhador especialmente no pós-64.
No dia 11 de julho ocorreu, então, uma das referidas festas “julinas”. E muito longe realmente de uma celebração pagã a Júlio Cesar. Além do quentão, do vinho quente, dos doces, pescaria, música, também teve o hasteamento do mastro de Santo Antônio com o padre e tudo e que em nada combinaria com o imperador. Mas também teve o inevitável e indispensável em todas essas festas: a quadrilha. E também como inevitável – festa dupla – pois as crianças vão dançar.
A noiva e o noivo sempre na frente e depois toda a quadrilha atrás. E realizam os mesmos passos de sempre, com as músicas caipiras típicas, ao estilo do que se dançava na tuia e o condutor da quadrilha dando os passos. Algo parece ligar toda essa gente, crianças e pais orgulhosos dos filhos, a um Brasil arcaico (horror para o nosso príncipe), mais antigo, menos desenvolvido, mas talvez mais autêntico, mais soberano. Algum fio de história parece conduzir toda essa gente e seus comes e bebes para outro Brasil. A celebração tem esse poder e essa força: arrancarmo-nos da cotidianidade, do mundo plasmado e nos levar para um eterno que está longe do presente. É a catarse coletiva. Poder-se-ía dizer uma bacante ou dionisíaca esta festa e sua dança e música? Não, em definitivo não é o que acontece aqui.
No estacionamento víamos os carros simples de trabalhadores naquele estrato referido e em busca do melhor, ou seja, a ascensão social. Mas o melhor estava lá dentro, no galpão de festas da Igreja: a dança. Talvez a quadrilha pudesse ser a síntese catártica que ainda pudesse levar a uma identificação mais íntima e popular, com aspirações diferentes de uma vida mais autêntica, forjada para longe das ambições do mercado. Não, também. Nos pés das crianças todas as marcas possíveis de tênis: Nike, Reebok, Adidas, etc. O noivo com um colete com inscrições em inglês. E o tradicional chapéu caipira, de palha, desfiado e amarfanhado, substituído, em muitos, por um belo chapéu texano. A dança não significava catarse e busca de uma autenticidade, mas tão somente uma festa de fim de semana, descaracterizada, mistura eclética de traços e elementos culturais. Elementos que poderiam, ainda que misturados, sintonizar para a catarse. Não é esse o caso. São elementos a sintonizar para um “estilo” de vida totalmente dependente, na economia deste estilo, como na sua psicologia e na sua cultura. Essas crianças, ali postas a representar algo que quase já não existe, morto, serão jovens trabalhadores, lutando para sobrevier e poder comprar a catarse no mercado. É mais fácil.
É evidente que um processo econômico de grande envergadura transforma a cultura e a sociedade. É o caso da urbanização-industrialização do Brasil, um dos mais violentos processos desse tipo no mundo. Violento em todos os sentidos da palavra: na carne e na alma, nos corpos e músculos das pessoas e na sua cultura. Não se pode exigir a volta como um alemão romântico do início do século XIX querendo seu castelo e sua medievalidade. No entanto, é neste ponto que surge o potencial da teoria: chamar à consciência o processo, descobrir o acontecido, identificar o destruído e conectar com o moderno escolhido, não o moderno a nós impingido. À teoria cabe um dos maiores papéis possíveis aqui: resgatar o perdido diante do realizado e reviver aquele. Uma antropofagia no melhor estilo para a libertação e emancipação. Posta, no entanto, na forma de uma festa tão anti-catártica, que não transcende o cotidiano para buscar um fundo de Brasil autêntico, só se pode dizer que a mesma é totalmente moderna (neste caso o melhor é pós-moderna, dada a mistura de elementos, o pastiche) e orgulho para nosso príncipe.
Marcelo Micke Doti
Todo mês de junho e na sua continuidade, julho, ocorrem as festas juninas e hoje já denominadas também “julinas” (que não tem relação alguma com uma pretensa celebração à Júlio Cesar). Este fato é interessante. Como no mês de julho são as férias escolares, então as festas acabam se arrastando para este mês. Originalmente, no campo, nos espaços agrícolas, a “roça” com falado pelo linguajar daqueles que vivem este espaço diferenciado, as festas eram dias santificados e, portanto, feriado. “Guardava-se” o dia. No entanto, o Brasil modernizou-se, tornou-se industrial e urbano e não mais é possível “guardar” o dia santo. Ótimo para o príncipe dos sociólogos que constantemente contrapunha o Brasil do atraso, arcaico, ao Brasil moderno. Por esse expediente o referido também falava das classes e dos espaços do país: o país do atraso e da modernidade. Não existem classes, apenas forças sociais envolvidas no bem-estar (e este é a modernidade, claro!). Assim, encurtando o “causo”, acaba ficando muito mais fácil e prático que seja em julho. O prático aqui com forte conotação bastante bem determinada: não atrapalhar do trabalho vendido ao capital.
Santa Lúcia é um bairro periférico em Araraquara. Às vezes é difícil falar em periferia em uma cidade de médio porte. No entanto, como estas são aquelas de maior potencial de crescimento no mundo atual (deslocamento e desconcentração industrial mais fáceis devidos aos “incentivos produtivos” ao capital), devemos esclarecer a localização de suas partes constitutivas. Mesmo porque cada parte do espaço representa uma parte da sociedade e, no caso do Santa Lúcia, vemos claramente através de suas casas e de sua ruas a sua estrutura social. Essa é a segregação espacial como fenômeno geográfico-social. A estrutura social desse bairro é muito clara: trabalhadores dos mais diversos labores e salários e, em sua grande maioria, vivendo e sobrevivendo para serem pequeno-burgueses. Sonho consumista de todo estrato trabalhador especialmente no pós-64.
No dia 11 de julho ocorreu, então, uma das referidas festas “julinas”. E muito longe realmente de uma celebração pagã a Júlio Cesar. Além do quentão, do vinho quente, dos doces, pescaria, música, também teve o hasteamento do mastro de Santo Antônio com o padre e tudo e que em nada combinaria com o imperador. Mas também teve o inevitável e indispensável em todas essas festas: a quadrilha. E também como inevitável – festa dupla – pois as crianças vão dançar.
A noiva e o noivo sempre na frente e depois toda a quadrilha atrás. E realizam os mesmos passos de sempre, com as músicas caipiras típicas, ao estilo do que se dançava na tuia e o condutor da quadrilha dando os passos. Algo parece ligar toda essa gente, crianças e pais orgulhosos dos filhos, a um Brasil arcaico (horror para o nosso príncipe), mais antigo, menos desenvolvido, mas talvez mais autêntico, mais soberano. Algum fio de história parece conduzir toda essa gente e seus comes e bebes para outro Brasil. A celebração tem esse poder e essa força: arrancarmo-nos da cotidianidade, do mundo plasmado e nos levar para um eterno que está longe do presente. É a catarse coletiva. Poder-se-ía dizer uma bacante ou dionisíaca esta festa e sua dança e música? Não, em definitivo não é o que acontece aqui.
No estacionamento víamos os carros simples de trabalhadores naquele estrato referido e em busca do melhor, ou seja, a ascensão social. Mas o melhor estava lá dentro, no galpão de festas da Igreja: a dança. Talvez a quadrilha pudesse ser a síntese catártica que ainda pudesse levar a uma identificação mais íntima e popular, com aspirações diferentes de uma vida mais autêntica, forjada para longe das ambições do mercado. Não, também. Nos pés das crianças todas as marcas possíveis de tênis: Nike, Reebok, Adidas, etc. O noivo com um colete com inscrições em inglês. E o tradicional chapéu caipira, de palha, desfiado e amarfanhado, substituído, em muitos, por um belo chapéu texano. A dança não significava catarse e busca de uma autenticidade, mas tão somente uma festa de fim de semana, descaracterizada, mistura eclética de traços e elementos culturais. Elementos que poderiam, ainda que misturados, sintonizar para a catarse. Não é esse o caso. São elementos a sintonizar para um “estilo” de vida totalmente dependente, na economia deste estilo, como na sua psicologia e na sua cultura. Essas crianças, ali postas a representar algo que quase já não existe, morto, serão jovens trabalhadores, lutando para sobrevier e poder comprar a catarse no mercado. É mais fácil.
É evidente que um processo econômico de grande envergadura transforma a cultura e a sociedade. É o caso da urbanização-industrialização do Brasil, um dos mais violentos processos desse tipo no mundo. Violento em todos os sentidos da palavra: na carne e na alma, nos corpos e músculos das pessoas e na sua cultura. Não se pode exigir a volta como um alemão romântico do início do século XIX querendo seu castelo e sua medievalidade. No entanto, é neste ponto que surge o potencial da teoria: chamar à consciência o processo, descobrir o acontecido, identificar o destruído e conectar com o moderno escolhido, não o moderno a nós impingido. À teoria cabe um dos maiores papéis possíveis aqui: resgatar o perdido diante do realizado e reviver aquele. Uma antropofagia no melhor estilo para a libertação e emancipação. Posta, no entanto, na forma de uma festa tão anti-catártica, que não transcende o cotidiano para buscar um fundo de Brasil autêntico, só se pode dizer que a mesma é totalmente moderna (neste caso o melhor é pós-moderna, dada a mistura de elementos, o pastiche) e orgulho para nosso príncipe.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
A política desigual e combinada
A inflexão política do núcleo do PT rumo ao PMDB e outros barões e baronetes regionais dentro e fora do Senado já foi cantada em prosa e verso por vários ex-próceres do PT e da teoria acadêmica, de Francisco de Oliveira a José de Souza Martins, passando por Giannotti (1). Ao invés de lançar pontes aos territórios irredentos do povo, de suas maiorias trabalhadoras e dali fazer crescer raízes ainda mais profundas no solo da emancipação nacional e social deplecionadas, o ato heróico da Carta aos Brasileiros foi a soldagem desse núcleo dominante com as aspirações monopolistas, i.e., antiemancipadoras das burguesias. É conhecida a infinita a capacidade dos pequenos burgueses de abraçar e trair as aspirações populares. Camada social vital nos processos das revoluções burguesas conservadoras no âmbito ex-colonial e ex-tardofeudal assim como das ex-vanguardas européias do capital mercantil, carrega consigo as tarefas da revolução e contra-revolução da dinâmica desses processos. No caso do PT, sua perna popular está atrofiando-se na exata medida em que a outra, burguesa, prepara-se para uma maratona. Até quando esse ente disforme manterá sua dupla identidade? Incapaz de levantar vôo com seu pé direito chumbado nas areias maranhenses vai desvelando seu coração burguês em insuperáveis, rocambolescas e laudatórias perorações à fieira de barões assinalados que o freqüentam no paço. Mas atenção, essa inflexão política não decorre de inflexível determinação política, a um retrocesso ideológico inesperado. Deve-se, antes de tudo, à continuidade da função primordial dos interesses materiais burgueses e pequeno-burgueses municipais e regionais representados no parlamento por parcelas importantes do PMDB. A nova pequena burguesia e seus novos líderes políticos-o PT como sua máxima expressão-, está obrigada a abraçar as velhas burguesias para manter-se no poder e continuar a servir desigualmente aos seus dois senhores, as maiorias trabalhadoras e ao capital monopolista. Essa troca desigual e combinada é a dança específica do poder lulista e determina a candidatura Dilma. Nas hostes da servidão monopolista, demo-psdbista, a dança café com leite esconde a escandalosa hegemonia paulista nos interesses do capital. Os neo-liberais paulistas, núcleo pequeno burguês desgarrado do MDB e em sua nova servidão orgânica tão arrogantes quanto o foram os velhos barões do café - agora por seu intermédio novamente no poder do estado com o capital monopolista dominante-, não podem ceder aos reclamos neo-capitalistas regionais mineiros, cearenses ou quaisquer outros. Duas limitações imanentes aos dois pólos contrincantes. A transição transada, operada por Golbery e os líderes oposicionistas - à exceção de Brizola-, como se desejava ocupou os espaços das formas burguesas. As maiorias trabalhadoras não estavam nelas. Elas estavam concebidas para a sua subordinação aos pólos políticos dos entes do capital. O PT não opera o retrocesso histórico. É o capitalismo brasileiro que não superou a sua particularidade miserável.
(1) Martins, José de Souza “E o general Golbery, afinal, não se enganou”, OESP, Aliás, J7, 19/07/09.
(1) Martins, José de Souza “E o general Golbery, afinal, não se enganou”, OESP, Aliás, J7, 19/07/09.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
A Copa de 1994, o Brasil, o pragmatismo e o Mercado
Marcelo Micke Doti
Sendo a principal função dos cientistas da história acompanhar seu percurso e suas artimanhas, nada melhor do que conectar fios da realidade em seus múltiplos níveis. Fazer as teorias universais em conceitos largos, também requer a histórica do cotidiano, seus conceitos subsidiários, menores, “rodapés da história”, mas que ajudam a construir o grande “romance universal”. Somente por meio destas múltiplas, intrincadas e transversais conexões e determinações escapamos – ou ao menos tentamos escapar – da falácia, armadilha ou artimanha do conceito. O que é isso? Generalizar, conformar uma realidade por meio do conceito – que é linguagem sobre a realidade – sem que o mesmo realmente explique. Em outra forma: tornar subjetiva a objetividade invertendo a fórmula de todo materialismo (inclusive o marxista): a realidade, a objetividade (realidade e objetividade são diferentes em Kant, mas isso não nos importa), é sempre maior e mais complexa do que a subjetividade e o pensar que apreendem pelos conceitos parte daquela. A inoperância inadequada dos mesmos leva a grandes desastres teóricos, senão práticos. Exemplar nisso o stalinismo, assim como a revolução burguesa no Brasil que não redundaria em golpe (como acreditava o PCB), a II Internacional e seu caminho pela economia e a crise “natural” do capitalismo e tantos outros conceitos que conformaram nossas lutas.
Fazer as crônicas da história, seus “rodapés”, conectando fios e determinações também é a etapa da construção do conceito. Por meio de personagens menos importantes podemos construir o grande romance histórico e sua teoria. Neste universo da crônica e da cultura do cotidiano construímos os elos que nos levam mais distante, mais além e nos fazem ver com olhos mais fortes para longe da platitude do real: vemos para a totalidade como construção histórica, social e intelectual.
Em 1982 e depois em 1986 a seleção brasileira jogava futebol dos mais belos que se poderia ver. Muitos críticos chegavam a comparar o mesmo ao da seleção de 1970 (montada por Saldanha, mas dirigida depois por Zagalo: era a mão grande da ditadura no cotidiano do conceito) e alguns ainda a lhe dizer superior. Nessa época aquele futebol vinha a coincidir com processos históricos nestas paragens deveras interessantes: as greves do ABC e o surgimento de novas lideranças (aquele metalúrgico de um novo sindicalismo e o que veio depois agora não importa), o processo de anistia (e seus problemas até hoje existentes), as eleições de 1982 para os governos dos estados com a vitória da oposição nos estados centrais (oposição, à época, na figura do PMDB).
Mas em um movimento crescente aquele futebol levou a uma astuta e sagaz jogada (em amplo sentido da palavra): a democracia corintiana. Além do futebol e do toque de bola de encher os olhos de Casagrande e Sócrates, os cartazes e faixas falando em “democracia corintiana” levava mais longe: era um espaço insuspeito nas televisões com a palavra democracia. Tática muito sábia naquele momento. Na verdade, ao se falar de democracia no time, usava-se a palavra como imagem e as televisões não poderiam deixar de mostrar essa imagem.
Neste mesmo caminho construíam-se expressões musicais como o rock nacional em novo patamar. Diferente da jovem guarda dos anos 1960 e 1970 e suas músicas cheias de elementos insossos e de cultura copiada, com suas muitas versões, nos anos 1980 surgiam grupos com músicas a expor e colocar jovens à parte dos problemas nacionais. Músicos como Chico Buarque, Gonzaguinha, etc. já faziam isso. No entanto o diferencial aqui era outro: o rock era incorporado como possibilidade de mostrar as realidades do país seus problemas. Quem não consegue perceber isso ao ouvir Faroeste Caboclo?
Em 17 de julho de 1994 a seleção brasileira ganhava a copa do mundo nos Estados Unidos. Nada mais sintomático em amplos sentidos. Aliás, esse é o mais maravilhoso do mundo da cultura: está repleto de significados, símbolos, imagens. A vitória de 1994 nos Estados Unidos, após 24 anos sem um título mundial de seleções, consagrou o pragmatismo na própria nação do pragmatismo. Consagrou o mercado na nação da livre empresa. Neste momento o futebol brasileiro não foi mais o mesmo, porque a cultura não era mais a mesma. Neste mesmo ano fomos inundados pelas vitórias do Plano Real e pelos importados e as delícias de consumo das classes sociais presas ao mercado. Provavelmente em momento algum da cultura brasileira sua extorsão nativa foi tão grande. Lembro-me nesta época de começar a dar aula e poucos alunos entenderem o conceito de mercado... Quantas diferenças...
Poder-se-ía, de maneira agradável e deliciosamente, prolongar essa crônica para abordar a marginalidade cultural desses anos. Falar da consagração das mais nefastas expressões musicais como axé music, o sertanejo com cara de música do oeste americano e seus festivais de peão com chapéu de texano e os detestáveis pagodes e seus instrumentos elétricos acabando com o samba, mas todos muito “antenados” ao mercado. Poderíamos falar de jogadores brasileiros, como o Júnior de 1982, que não ficaram na Europa por não se adaptar e aqueles que hoje jogam na seleção e já têm sotaque de seus novos países: pudera, já forma postos no mercado com seus 17 ou 18 anos. Porém é mais fácil ver que em 1994 a vitória do futebol representou um novo tipo de paradigma no Brasil: a eficiência do mercado e o pragmatismo de tudo, da universidade às artes. A vitória naquele 17 de julho significou a derrota de uma nação autêntica. Por caminhos os mais estranhos e insuspeitos, mais uma vez a ditadura ganhou e, calados, vemos o “sinal fechado para nós que somos jovens”. Abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua tem que ter um preço.
Marcelo Micke Doti
Sendo a principal função dos cientistas da história acompanhar seu percurso e suas artimanhas, nada melhor do que conectar fios da realidade em seus múltiplos níveis. Fazer as teorias universais em conceitos largos, também requer a histórica do cotidiano, seus conceitos subsidiários, menores, “rodapés da história”, mas que ajudam a construir o grande “romance universal”. Somente por meio destas múltiplas, intrincadas e transversais conexões e determinações escapamos – ou ao menos tentamos escapar – da falácia, armadilha ou artimanha do conceito. O que é isso? Generalizar, conformar uma realidade por meio do conceito – que é linguagem sobre a realidade – sem que o mesmo realmente explique. Em outra forma: tornar subjetiva a objetividade invertendo a fórmula de todo materialismo (inclusive o marxista): a realidade, a objetividade (realidade e objetividade são diferentes em Kant, mas isso não nos importa), é sempre maior e mais complexa do que a subjetividade e o pensar que apreendem pelos conceitos parte daquela. A inoperância inadequada dos mesmos leva a grandes desastres teóricos, senão práticos. Exemplar nisso o stalinismo, assim como a revolução burguesa no Brasil que não redundaria em golpe (como acreditava o PCB), a II Internacional e seu caminho pela economia e a crise “natural” do capitalismo e tantos outros conceitos que conformaram nossas lutas.
Fazer as crônicas da história, seus “rodapés”, conectando fios e determinações também é a etapa da construção do conceito. Por meio de personagens menos importantes podemos construir o grande romance histórico e sua teoria. Neste universo da crônica e da cultura do cotidiano construímos os elos que nos levam mais distante, mais além e nos fazem ver com olhos mais fortes para longe da platitude do real: vemos para a totalidade como construção histórica, social e intelectual.
Em 1982 e depois em 1986 a seleção brasileira jogava futebol dos mais belos que se poderia ver. Muitos críticos chegavam a comparar o mesmo ao da seleção de 1970 (montada por Saldanha, mas dirigida depois por Zagalo: era a mão grande da ditadura no cotidiano do conceito) e alguns ainda a lhe dizer superior. Nessa época aquele futebol vinha a coincidir com processos históricos nestas paragens deveras interessantes: as greves do ABC e o surgimento de novas lideranças (aquele metalúrgico de um novo sindicalismo e o que veio depois agora não importa), o processo de anistia (e seus problemas até hoje existentes), as eleições de 1982 para os governos dos estados com a vitória da oposição nos estados centrais (oposição, à época, na figura do PMDB).
Mas em um movimento crescente aquele futebol levou a uma astuta e sagaz jogada (em amplo sentido da palavra): a democracia corintiana. Além do futebol e do toque de bola de encher os olhos de Casagrande e Sócrates, os cartazes e faixas falando em “democracia corintiana” levava mais longe: era um espaço insuspeito nas televisões com a palavra democracia. Tática muito sábia naquele momento. Na verdade, ao se falar de democracia no time, usava-se a palavra como imagem e as televisões não poderiam deixar de mostrar essa imagem.
Neste mesmo caminho construíam-se expressões musicais como o rock nacional em novo patamar. Diferente da jovem guarda dos anos 1960 e 1970 e suas músicas cheias de elementos insossos e de cultura copiada, com suas muitas versões, nos anos 1980 surgiam grupos com músicas a expor e colocar jovens à parte dos problemas nacionais. Músicos como Chico Buarque, Gonzaguinha, etc. já faziam isso. No entanto o diferencial aqui era outro: o rock era incorporado como possibilidade de mostrar as realidades do país seus problemas. Quem não consegue perceber isso ao ouvir Faroeste Caboclo?
Em 17 de julho de 1994 a seleção brasileira ganhava a copa do mundo nos Estados Unidos. Nada mais sintomático em amplos sentidos. Aliás, esse é o mais maravilhoso do mundo da cultura: está repleto de significados, símbolos, imagens. A vitória de 1994 nos Estados Unidos, após 24 anos sem um título mundial de seleções, consagrou o pragmatismo na própria nação do pragmatismo. Consagrou o mercado na nação da livre empresa. Neste momento o futebol brasileiro não foi mais o mesmo, porque a cultura não era mais a mesma. Neste mesmo ano fomos inundados pelas vitórias do Plano Real e pelos importados e as delícias de consumo das classes sociais presas ao mercado. Provavelmente em momento algum da cultura brasileira sua extorsão nativa foi tão grande. Lembro-me nesta época de começar a dar aula e poucos alunos entenderem o conceito de mercado... Quantas diferenças...
Poder-se-ía, de maneira agradável e deliciosamente, prolongar essa crônica para abordar a marginalidade cultural desses anos. Falar da consagração das mais nefastas expressões musicais como axé music, o sertanejo com cara de música do oeste americano e seus festivais de peão com chapéu de texano e os detestáveis pagodes e seus instrumentos elétricos acabando com o samba, mas todos muito “antenados” ao mercado. Poderíamos falar de jogadores brasileiros, como o Júnior de 1982, que não ficaram na Europa por não se adaptar e aqueles que hoje jogam na seleção e já têm sotaque de seus novos países: pudera, já forma postos no mercado com seus 17 ou 18 anos. Porém é mais fácil ver que em 1994 a vitória do futebol representou um novo tipo de paradigma no Brasil: a eficiência do mercado e o pragmatismo de tudo, da universidade às artes. A vitória naquele 17 de julho significou a derrota de uma nação autêntica. Por caminhos os mais estranhos e insuspeitos, mais uma vez a ditadura ganhou e, calados, vemos o “sinal fechado para nós que somos jovens”. Abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua tem que ter um preço.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Metodologia e Fio da História
Marcelo Micke Doti
Uma das principais questões a serem respondidas por todos os teóricos que tem na história sua própria forma de existência são as conexões e articulações entre os múltiplos acontecimentos no tempo, no espaço e em instâncias diferentes do fazer social e de produção da realidade. Por exemplo, uma teoria do imperialismo deve saber conectar os muitos elos de articulação e determinações as mais distantes entre uma tomada de decisão da OMC e a exploração de trabalhadores do sudeste asiático. Também, ainda no caso do imperialismo, saber articular a dinâmica de uma decisão política interna a um país – como o caso da empresa que irá ser formada para o pré-sal e as empresas que o poderão extrair na forma de participação, sem definir ainda como será essa participação (ver Folha de São Paulo, 14 de julho de 2009, caderno Dinheiro) – com a reprodução do capital internacional.
Nem se precisa dizer que as articulações com as questões militares são intensas e das mais importantes uma vez que qualquer definição e conceituação de imperialismo deve conter o elemento de poder e força militar. Na atualidade, no entanto, essa força militar não necessita da conquista e do domínio dos espaços na forma de colônias como foi no passado: o controle do espaço pode ser feito de formas mais eficientes e na forma-democracia.
Veja o livro de Chalmers Johnson, As Aflições do Império, que sustenta muito bem a ideia do império americano como um império de bases militares. Trata-se de um império tipicamente pós-moderno: um império de redes. Neste sentido o livro de Magdoff, A Era do Imperialismo, também contém dados que possibilitam formular o conceito atual de imperialismo na forma diferente do “imperialismo clássico”, ou seja, na qual territórios não precisam ser necessariamente subordinados à invasão militar (ainda que isso seja recorrente, afinal o militarismo é determinante, como referido acima, de qualquer definição de imperialismo). Também Harvey fornece pistas interessantes ao tentar elevar o conceito de acumulação primitiva a conceito universal no capitalismo (o universal em sentido metodológico se refere àquilo que vai além de explicação particular). Algo já feito também por Rosa Luxemburgo em A Acumulação de Capital.
Mas a questão metodológica foi tão somente exemplificada na forma do conceito de imperialismo. Como se anuncia no início do fio da história deve-se buscar a ligação de fatos e personagens para compreender a dinâmica histórica. Assim: “Seguir o fio da história, descobrir as relações entre personagens e processos, a dinâmica da história e das transformações”. Portanto cada fato e mesmo a posição histórica de cada personagem revela o conteúdo e o sentido da história. Descobrir a mesma é ter a “paixão pelo real”. Trata-se de metodologia que consiga tomar todos os fatos singulares, acumular todos os fatos necessários ao entendimento da realidade. No entanto esse processo de catalogar seria meramente obra enciclopédica que nada nos proporciona. Útil, mas não fornece compreensão e possibilidade de entender as potencialidades e frinchas da realidade para a transformação. Neste ponto é que todas as singularidades devem se elevar ao concreto pensado por meio das determinações fundamentais na totalidade. Contar a história nesse nível é fazer a articulação dos múltiplos elos das classes e seus interesses.
A roda não precisa ser reinventada aqui: Marx forneceu essas pistas ao nos falar no posfácio à segunda edição alemã de O Capital que esse é o método preciso: fazer todas as leituras e catalogar todos os fatos necessários. A exposição é o momento do método que nos leva a articular os fatos para além do trabalho de enciclopedista e, uma fez conseguida a adequada exposição, parecerá que tudo foi concebido a priori, como puro fruto mental, Atena saindo da cabeça de Zeus. Nada disso está sendo tratado aqui, mas tão somente um método que reúne na categoria do conhecimento da totalidade todos os fatos singulares em seus devidos momentos reais (ontológicos) de importância. E isso só é possível na medida em que se conhecem as principais categorias que estruturam a realidade.
Esse é o “fardo histórico” que deve conduzir a entender cada momento e a importância de cada um deles para se fazer a teoria totalmente colada à história sob pena de sermos queimados à 232ºC.
Marcelo Micke Doti
Uma das principais questões a serem respondidas por todos os teóricos que tem na história sua própria forma de existência são as conexões e articulações entre os múltiplos acontecimentos no tempo, no espaço e em instâncias diferentes do fazer social e de produção da realidade. Por exemplo, uma teoria do imperialismo deve saber conectar os muitos elos de articulação e determinações as mais distantes entre uma tomada de decisão da OMC e a exploração de trabalhadores do sudeste asiático. Também, ainda no caso do imperialismo, saber articular a dinâmica de uma decisão política interna a um país – como o caso da empresa que irá ser formada para o pré-sal e as empresas que o poderão extrair na forma de participação, sem definir ainda como será essa participação (ver Folha de São Paulo, 14 de julho de 2009, caderno Dinheiro) – com a reprodução do capital internacional.
Nem se precisa dizer que as articulações com as questões militares são intensas e das mais importantes uma vez que qualquer definição e conceituação de imperialismo deve conter o elemento de poder e força militar. Na atualidade, no entanto, essa força militar não necessita da conquista e do domínio dos espaços na forma de colônias como foi no passado: o controle do espaço pode ser feito de formas mais eficientes e na forma-democracia.
Veja o livro de Chalmers Johnson, As Aflições do Império, que sustenta muito bem a ideia do império americano como um império de bases militares. Trata-se de um império tipicamente pós-moderno: um império de redes. Neste sentido o livro de Magdoff, A Era do Imperialismo, também contém dados que possibilitam formular o conceito atual de imperialismo na forma diferente do “imperialismo clássico”, ou seja, na qual territórios não precisam ser necessariamente subordinados à invasão militar (ainda que isso seja recorrente, afinal o militarismo é determinante, como referido acima, de qualquer definição de imperialismo). Também Harvey fornece pistas interessantes ao tentar elevar o conceito de acumulação primitiva a conceito universal no capitalismo (o universal em sentido metodológico se refere àquilo que vai além de explicação particular). Algo já feito também por Rosa Luxemburgo em A Acumulação de Capital.
Mas a questão metodológica foi tão somente exemplificada na forma do conceito de imperialismo. Como se anuncia no início do fio da história deve-se buscar a ligação de fatos e personagens para compreender a dinâmica histórica. Assim: “Seguir o fio da história, descobrir as relações entre personagens e processos, a dinâmica da história e das transformações”. Portanto cada fato e mesmo a posição histórica de cada personagem revela o conteúdo e o sentido da história. Descobrir a mesma é ter a “paixão pelo real”. Trata-se de metodologia que consiga tomar todos os fatos singulares, acumular todos os fatos necessários ao entendimento da realidade. No entanto esse processo de catalogar seria meramente obra enciclopédica que nada nos proporciona. Útil, mas não fornece compreensão e possibilidade de entender as potencialidades e frinchas da realidade para a transformação. Neste ponto é que todas as singularidades devem se elevar ao concreto pensado por meio das determinações fundamentais na totalidade. Contar a história nesse nível é fazer a articulação dos múltiplos elos das classes e seus interesses.
A roda não precisa ser reinventada aqui: Marx forneceu essas pistas ao nos falar no posfácio à segunda edição alemã de O Capital que esse é o método preciso: fazer todas as leituras e catalogar todos os fatos necessários. A exposição é o momento do método que nos leva a articular os fatos para além do trabalho de enciclopedista e, uma fez conseguida a adequada exposição, parecerá que tudo foi concebido a priori, como puro fruto mental, Atena saindo da cabeça de Zeus. Nada disso está sendo tratado aqui, mas tão somente um método que reúne na categoria do conhecimento da totalidade todos os fatos singulares em seus devidos momentos reais (ontológicos) de importância. E isso só é possível na medida em que se conhecem as principais categorias que estruturam a realidade.
Esse é o “fardo histórico” que deve conduzir a entender cada momento e a importância de cada um deles para se fazer a teoria totalmente colada à história sob pena de sermos queimados à 232ºC.
A Dinâmica Própria da Transição Comunista
Introdução
Devemos desenvolver critérios, métodos e ações que possam garantir essa transição.
Em verdade o único programa até agora existente de transição é o elaborado por Lenin, praticamente a fins do século XIX, ou seja, a mais de um século atrás, e que se mostrou não compreendido pela imensa maioria dos revolucionários, sem contar as inúmeras deformações que lhe foram introduzidas durante o processo histórico.
Além do acima dito, é imperativo levar em consideração que aquele programa foi aplicado no último império feudal que restava na Europa, e o capitalismo estava em franco desenvolvimento. Somente com estas considerações é suficiente para entendermos a necessidade de sua revisão.
A situação atual é bastante diferente que aquela de 1917. Embora existam países vivendo um capitalismo bastante atrasados no mundo, o capital como um todo está totalmente esgotado em sua capacidade de desenvolvimento. O imperialismo vem exercendo mirabolantes manobras para seguir existindo, tal como tentar enganar a lei do valor vigente no capitalismo, inventar agressões ao estado hegemônico militar, econômica e politicamente no mundo somente para agredir e destruir um país, como o Iraque para se apoderar de seu petróleo e outras mirabolices.
Portanto, como é fácil de imaginar-se, é necessária uma profunda revisão crítica no programa leninista para que o resultado tenha vigência atual.
Uma das questões é por onde começar essa revisão crítica, pois não se trata de jogar no lixo tudo o que foi dito e feito, mas apreciar criticamente como refazer as coisas para garantir de fato uma transição estável e com a menor dor possível para o futuro da humanidade. Quais os pontos onde houve alguma equivocação a ser re-estudados, quais os que devem ser mudados devido à superação histórica e quais os que devem se mantidos.
E a questão de por onde começar e qual a seqüência a ser seguida não é indiferente. Não é a mesma coisa desenvolver um partido que responda às mudanças da atualidade e depois rever as teorias de transição do estado ou desenvolver uma visão clara de como o estado deve ser encarado para terminar desaparecendo e então desenvolver um partido que responda a essa necessidade e às da atualidade.
Portanto, devemos iniciar estabelecendo as prioridades da transformação que a emancipação humana exige.
Devemos desenvolver critérios, métodos e ações que possam garantir essa transição.
Em verdade o único programa até agora existente de transição é o elaborado por Lenin, praticamente a fins do século XIX, ou seja, a mais de um século atrás, e que se mostrou não compreendido pela imensa maioria dos revolucionários, sem contar as inúmeras deformações que lhe foram introduzidas durante o processo histórico.
Além do acima dito, é imperativo levar em consideração que aquele programa foi aplicado no último império feudal que restava na Europa, e o capitalismo estava em franco desenvolvimento. Somente com estas considerações é suficiente para entendermos a necessidade de sua revisão.
A situação atual é bastante diferente que aquela de 1917. Embora existam países vivendo um capitalismo bastante atrasados no mundo, o capital como um todo está totalmente esgotado em sua capacidade de desenvolvimento. O imperialismo vem exercendo mirabolantes manobras para seguir existindo, tal como tentar enganar a lei do valor vigente no capitalismo, inventar agressões ao estado hegemônico militar, econômica e politicamente no mundo somente para agredir e destruir um país, como o Iraque para se apoderar de seu petróleo e outras mirabolices.
Portanto, como é fácil de imaginar-se, é necessária uma profunda revisão crítica no programa leninista para que o resultado tenha vigência atual.
Uma das questões é por onde começar essa revisão crítica, pois não se trata de jogar no lixo tudo o que foi dito e feito, mas apreciar criticamente como refazer as coisas para garantir de fato uma transição estável e com a menor dor possível para o futuro da humanidade. Quais os pontos onde houve alguma equivocação a ser re-estudados, quais os que devem ser mudados devido à superação histórica e quais os que devem se mantidos.
E a questão de por onde começar e qual a seqüência a ser seguida não é indiferente. Não é a mesma coisa desenvolver um partido que responda às mudanças da atualidade e depois rever as teorias de transição do estado ou desenvolver uma visão clara de como o estado deve ser encarado para terminar desaparecendo e então desenvolver um partido que responda a essa necessidade e às da atualidade.
Portanto, devemos iniciar estabelecendo as prioridades da transformação que a emancipação humana exige.
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